edu monteiro -
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O mundo tornado imagem é de imediato perdido. Por isso a fotografia carrega certa melancolia: a imagem é sempre passado. A conquista imaginária do planeta Terra a que os primeiros fotógrafos-viajantes se lançaram, gloriosos, permitia a ilusão de um ganho (de mundo). Hoje, a viagem da fotografia talvez tenha se tornado um tocante e repetido inventário do que nos resta.Nela seríamos guiados pelo planeta Saturno, que segundo os antigos estaria associado à produção da bile negra que domina o temperamento melancólico.

Saturno é uma dessas viagens do retorno, da perda, mas é também um itinerário de transformação do mundo. Edu Monteiro nela retoma lugares assumidamente íntimos, em uma espécie de busca de si mesmo. De volta ao Sul do país, onde nasceu e passou sua infância, ele percorreu a serra gaúcha e o longo litoral do estado. Às imagens obtidas nesses itinerários acrescentaram-se fragmentos obtidos em outras paragens: Paris, Buenos Aires, Ilha Grande, Porto Alegre, Barbados.

Nessa múltipla viagem o fotógrafo não confirma seu lugar no mundo, mas afirma-se fora de si: em determinados recortes do mundo. Em algumas fotografias Edu utiliza um complexo dispositivo concebido por ele mesmo e composto de um espelho circular que lhe cobre o rosto e ao qual se acoplam, em sua face interna, o visor e o disparador remotos de sua câmera fotográfica. Graças a esse aparato, o artista se duplica e divide entre aquele que vê e aquele que é olhado pela câmera.Em parte mimetizado ao ambiente, ele pode então, alternadamente, se confundir com o contexto à sua volta ou dele se destacar, brincando com a distinção entre paisagem e retrato, objeto e sujeito, de modo a afirmar na paisagem e no objeto uma estranha força de autorrepresentação.

Diferente de sua própria imagem, o sujeito surge com força, assim, mesmo nas imagens em que não há espelho nem autorretrato: ele está disseminado em objetos e cenas. A fotografia retoma então toda sua potência alegórica, todo o estranho poder que talvez lhe atribuíssem em seus primeiros tempos: aquele de animar restos e fragmentos variados de mundo.

Tania Rivera

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When the world is transformed into images, it is immediately lost. This lends photography a certain degree of melancholy: images are always in the past. As the early traveling photographers launched gloriously into an imaginary conquest of the world, they held before them the illusion of a gain (of the world). Today, these voyages have become perhaps a touching and repeated inventory of what is left us. As travelers, our guide is perhaps the planet Saturn, linked from ancient times to the secretion of black bile that presides over the melancholic temperament.

Saturn is one such voyage of return, of loss, but its course also transforms the world. It took Edu Monteiro back to places admittedly intimate, a trip, in a way, in search for himself. Monteiro returned to the south of the country where he was born and where he spent his childhood, traveling across the mountains of Rio Grande do Sul and along the state’s lengthy coastline. And to the images gathered on his trips, Monteiro added fragments from other stops: Paris, Buenos Aires, Ilha Grande, Porto Alegre, Barbados.

Throughout this manifold trip, the photographer does not reaffirm his place in the world, but instead reaffirms his place as outside his own self - through specific cut-outs of the world. Monteiro employs a complex apparatus of his own conception in some of his photographs, a circular mirror used cover his face which has a viewfinder and his camera’s shutter release attached under it. Thanks to this apparatus the photographer both doubles himself and is split between the one who sees and the one seen by the camera. Partly camouflaged into the environment, he can by turns merge into the setting around him and stand out. He plays with the opposition of landscape and portrait, subject and object, so as to affirm through both landscape and object, a strange force of self-representation.

Even in those of Monteiro’s works that do not involve mirrors or self-portraits, the subject differs from its own image and emerges forcefully, diffused in objects and scenes. At this point photography resumes its full power of allegory, the entirety of the strange power that was perhaps conferred to it in its early period: the power to animate fragments and remains of the world.